Desde a infância que vamos desenvolvendo os aspetos ocultos e sombrios de nós mesmos, os  ângulos cegos que guardamos no inconsciente (experiências dolorosas, traumas, pedaços de vida em que não fomos aceites, amados e reconhecidos, momentos de dor, ou aqueles em que não nos permitimos ser quem somos, feridas da alma que ficaram guardadas na profundidade do Ser).

Por um lado, identificamo-nos e reconhecemos aquilo que nos agrada em nós, pode ser simpatia, boa capacidade de estabelecer vínculos emocionais com os outros, positivismo, resiliência, etc. mas depois há aquele lado mais sombrio, aquelas características que menos gostamos, das quais até nos envergonhamos, ou não nos queremos confrontar com elas porque são demasiado desconfortáveis: são frustrações, alguns traços de caráter, experiências dolorosas, insegurança, medo da rejeição e abandono, falta de amor próprio…

A sombra faz parte do inconsciente e se não reconhecida, aceite e amada, pode limitar a nossa vida, e a expressão do nosso potencial, sem nos darmos muitas vezes conta disso.

O que não enfrentamos, ou as áreas para as quais não trazemos a luz da consciência, mais tarde poderão surpreender de forma desagradável. A sombra pode manifestar-se em reações exageradas, hostilidade, necessidade de controlo, ou até na atração pelas situações sombrias, complicadas, o exemplo de relações difíceis, manipuladoras e violentas.

Mas a sombra não contém apenas o lado mais “obscuro” dos sintomas neuróticos, nela também reside o gérmen da luz, do oculto, ou seja aquelas coisas que não somos capazes de ver, como as nossas potencialidades, talentos e aptidões.

Ou seja, há dentro de nós um universo, mundos que esquecemos, que enterramos nas profundezas do nosso inconsciente, e que reencontramos muitas vezes na hora dos conflitos e crises, ou no encontro com os outros.

Abraçar a nossa sombra, implica portanto irmos rumo a nós mesmos na sua totalidade, com tudo aquilo que somos, abrindo a mão das defesas, medos e rigidez.

É uma oportunidade de nos apaziguarmos também connosco mesmos e com os outros, percebermos quem somos, como aqui chegamos, o porquê de certos comportamentos na nossa vida, e como estes influenciaram o nosso percurso até aqui.

É um convite à reconciliação com os nossos “demónios”, que podemos fazer através da terapia.

Quando a nossa força descobrir a sua própria vulnerabilidade e nos dermos conta de que, além da luz, também somos feitos de sombras, quando deixarmos de acreditar que a responsabilidade por todos os “males” e “injustiças” está fora de nós, que os outros são os culpados, talvez nessa altura poderemos fazer as pazes com a nossa sombra e surfar com mais leveza pelas adversidades da vida.

 

 

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